
Companhia reduz operações para se tornar mais atrativa, mas enfrenta incertezas sobre privatização (Eric Ribeiro/M&E)
A estatal Aerolíneas Argentinas está no centro de um controverso plano de privatização liderado pelo presidente libertário Javier Milei, que assumiu o poder no final de 2023 prometendo uma “revolução econômica”. Como parte do projeto, a companhia aérea iniciou uma reestruturação significativa, com cortes de 13% do quadro de funcionários, eliminação de rotas domésticas deficitárias e redução de serviços, como lanches a bordo. A medida busca tornar a empresa mais atrativa para investidores privados e reduzir seu impacto no orçamento público.
De acordo com documentos obtidos pela Reuters e entrevistas com executivos e funcionários, os cortes já trouxeram resultados positivos em 2024, quando a companhia registrou lucro pela primeira vez em sete anos. “Nosso trabalho é colocar a Aerolíneas em ordem”, disse uma fonte sênior da empresa, acrescentando que o objetivo é operar de forma mais competitiva, semelhante às companhias privadas. “Assim, quando chegar a hora da privatização, a empresa estará mais atraente.”
Milei, conhecido por suas posições radicais, afirmou que a estatal não permanecerá sob controle do governo: “Ou ela é fechada, para reduzir o déficit, ou é privatizada”, declarou em entrevista a uma rádio local em novembro. Desde 2008, quando voltou ao controle estatal após uma privatização malsucedida nos anos 1990, a Aerolíneas consumiu cerca de 8 bilhões de dólares dos cofres públicos, segundo o governo.
Cortes e resistência
As mudanças incluem o cancelamento de rotas pouco lucrativas, congelamento de salários, dispensa de trabalhadores terceirizados e cortes de benefícios dos funcionários, como voos gratuitos e bônus em dólares. Até os serviços a bordo sofreram ajustes. De acordo com fontes, a eliminação de lanches economizou mais de 500 mil dólares anuais, com passageiros da classe econômica recebendo apenas uma barra de cereais, enquanto na classe executiva restou uma única sobremesa.
A reestruturação gerou forte oposição de sindicatos e políticos locais, que denunciam impactos sociais e econômicos. Protestos nos principais aeroportos do país, organizados por funcionários, resultaram em atrasos e cancelamentos de voos. “Nosso trabalho é a única arma que temos”, disse o piloto veterano Juan Pablo Mazzieri, destacando a insatisfação dos trabalhadores com as mudanças.
Os sindicatos também argumentam que a Aerolíneas cumpre um papel social crucial em um país de grande extensão territorial e com poucas alternativas de transporte. Dados recentes mostram que o corte de rotas levou a uma queda de 9% nas viagens domésticas, afetando sobretudo regiões mais isoladas. “Estamos vendo quase a metade do número de voos que tínhamos há um ano”, afirmou Marcelo Austi, agente de portão no aeroporto Aeroparque, em Buenos Aires.
Privatização: desafios e negociações; Grupo Abra declarou interesse
O governo enfrenta resistência no Congresso para concretizar a privatização, mas Javier Milei mantém o discurso firme. Fontes informaram que empresas como a holding Abra Group, que controla a Avianca e a brasileira Gol, demonstraram interesse inicial na aquisição. No entanto, analistas avaliam que a venda total da companhia pode ser complicada. “Seria mais fácil para alguém adquirir uma participação parcial”, sugeriu uma fonte da Aerolíneas, citando o exemplo da Lufthansa, que recentemente adquiriu 41% da estatal italiana ITA Airways.
O presidente-executivo da empresa, Fabian Lombardo, afirmou, no entanto, que várias companhias internacionais haviam manifestado interesse.
Enquanto negociações formais ainda não avançaram, Milei considera um “Plano B”: transferir a propriedade para os próprios funcionários. A proposta, entretanto, encontra resistência entre os sindicatos, que temem perder o controle sobre a gestão e os benefícios.
A privatização da Aerolíneas Argentinas é vista como um teste crucial para as reformas de Milei, que buscam reduzir a presença do Estado na economia e atrair investimentos. Porém, o futuro da companhia continua incerto, em meio a disputas políticas e trabalhistas.