PARTE II

O overtourism começou a tomar forma após a Segunda Guerra Mundial, com o desenvolvimento econômico e a popularização dos voos comerciais (Eric Ribeiro/M&E)
O overtourism tornou-se um desafio significativo para muitas cidades ao redor do mundo. Barcelona, na Espanha; Veneza, na Itália; Amsterdã, na Holanda e Kyoto, no Japão são alguns dos destinos mais afetados, e que para frear os impactos negativos que a atividade turística traz está implementando restrições.
“O crescimento sempre vai levar a uma sobrecarga em tudo – infraestrutura, congestionamento, suprimentos e vai abalar a qualidade de vida do local”
“Acho que a principal mensagem é sobre o quanto de fato discutimos turismo como uma alternativa ao desenvolvimento dos locais e não somente de alguns produtos. O crescimento sempre vai levar a uma sobrecarga em tudo – infraestrutura, congestionamento, suprimentos e vai abalar a qualidade de vida do local. Limitar visitantes é alternativa para quem não foi competente na gestão, uma vez que sabemos – já há muito conhecimento acumulado sobre o tema”, afirma Mariana Aldrigui, pesquisadora de Turismo e professora da USP.
A título de curiosidade, o overtourism começou a tomar forma após a Segunda Guerra Mundial, com o desenvolvimento econômico e a popularização dos voos comerciais. A partir da década de 1990, a globalização e a intensificação das campanhas de marketing direcionadas a mercados amplos contribuíram para um crescimento acelerado dos volumes de turistas.
“Limitar visitantes é alternativa para quem não foi competente na gestão”
Com as tecnologia em desenvolvimento constante e as redes sociais cada vem mais impactantes, o sonho de conhecer novos destinos pode, com frequência, se tornar sinônimo de uma experiencia ruim e de acesso limitado. Diante deste cenário, diversos governos adotaram medidas de restrição de público. Confira!
Amsterdã

Amsterdã irá diminuir gradualmente quantidade de cruzeiros até 2035, passando a não receber mais no porto da cidade holandesa (Unsplash/ Gaurav Jain)
Desde maio, Amsterdã não permite a construção de novos hotéis. A medida faz parte de sua estratégia para combater o turismo de massa, que já inclui as taxas de turismo mais altas da Europa.. A regra, anunciada pelo governo local, estabelece que novos hotéis só poderão ser construídos se substituírem estabelecimentos existentes e oferecerem melhorias, como sustentabilidade.
A cidade visa limitar o número de pernoites a 20 milhões por ano para preservar a qualidade de vida dos residentes e visitantes. A proibição não se aplica a projetos de hotéis já licenciados. Além disso, Amsterdã tem tomado medidas para reduzir o turismo relacionado a drogas e ao sexo no distrito da luz vermelha.
O cenário visa lutar contra o overtourism, que chega a 20 milhões de visitantes anuais. A cidade tem adotado medidas como o aumento das taxas de turismo e a promoção de atrações fora do centro histórico para redistribuir o fluxo de turistas e minimizar o impacto ambiental.
Além disso, Amsterdã limitará o número de cruzeiros marítimos no Terminal de Passageiros a 100 a partir de 2026 e desativará o terminal para cruzeiros até 2035. A cidade também exigirá que todos os cruzeiros usem energia da costa até 2027 para reduzir a poluição.
Barcelona
Barcelona enfrenta uma crise de overtourism, com um aumento anual no número de visitantes. Em 2023, a cidade recebeu 26 milhões de turistas e gerou € 12,75 bilhões em gastos, superando a capacidade suportável da infraestrutura local. O congestionamento nas áreas históricas, como o Bairro Gótico, tem levado a um aumento dos preços imobiliários e a um impacto negativo na qualidade de vida dos residentes. Além disso, a sobrecarga tem contribuído para a deterioração dos monumentos históricos e a poluição ambiental.
O destino substituirá o slogan “Visite Barcelona” por “Isto é Barcelona” a partir de 22 de agosto, como parte de uma nova campanha de promoção turística. O conselho de turismo da cidade busca reduzir o impacto do overtourism e atrair visitantes interessados na história e na cultura local. A decisão segue protestos recentes contra o turismo em massa, que incluíram manifestações e pedidos de restrições, como a proibição de aluguéis de curta duração e a suspensão de novas licenças para hotéis.
Vale ainda apontar, que a cidade vai suspender integralmente até 2028 o aluguel de curta duração, visto que atualmente há mais de dez mil imóveis usados neste formato. As licenças em vigor, renovação e as novas emissões serão encerradas.
Berlim
Berlim, na Alemanha, enfrenta desafios relacionados ao overtourism em áreas populares como Mitte e Kreuzberg. Em resposta, a cidade está trabalhando para diversificar a oferta turística e incentivar o turismo em destinos menos conhecidos, tentando equilibrar o fluxo de visitantes e reduzir a pressão sobre os bairros mais afetados.
Kyoto
Em 2023, Kyoto recebeu aproximadamente 10 milhões de turistas, gerando preocupações sobre o desgaste de seus sítios históricos e a necessidade de gerenciamento de visitantes. A cidade está implementando estratégias para equilibrar o turismo com a conservação dos recursos culturais.
Desde abril, o destino restringiu o acesso dos turistas às ruas privadas do bairro histórico de Gion, como medida para proteger as gueixas e maikos, que têm sido fotografadas sem permissão. A decisão segue denúncias de que turistas deixavam lixo, fumavam em locais proibidos e causavam incômodos nas áreas históricas.
Além da proibição, que não se aplica a moradores e clientes das gueixas, Kyoto já impôs uma multa de ¥ 10.000 (cerca de R$ 340) para quem fotografar nas áreas proibidas. A cidade enfrenta um aumento de turistas desde o fim da pandemia e está alinhada com outras localidades japonesas que também implementam restrições para controlar o overtourism.
Lisboa
A prefeitura de Lisboa, em Portugal, suspendeu temporariamente novas licenças para aluguéis de curto prazo a partir de meados de 2022. Em 2023, a restrição foi estendida para áreas urbanas, após o término do programa Golden Visa. A cidade pretende estabelecer novas regulamentações para limitar o número de unidades disponíveis para aluguel de curto prazo, com o objetivo de aliviar a crise de moradia local e preservar a qualidade de vida dos residentes.
Nova York
Nova York suspendeu os aluguéis de curto prazo, impondo novas regras que exigem que os imóveis estejam cadastrados e que os anfitriões residam no local durante a estadia dos visitantes. A decisão, que entrou em vigor em setembro de 2023, também requer que os proprietários paguem uma taxa de renovação a cada dois anos. O Airbnb contestou a medida, alegando que as novas regras prejudicam a flexibilidade e a acessibilidade dos aluguéis de curto prazo na cidade.
Praga
Praga, na República Tcheca, tem implementado várias medidas para lidar com a superlotação, especialmente no centro histórico. A cidade introduziu taxas de turismo, limitou o número de ônibus turísticos e promoveu o turismo sustentável para mitigar os impactos negativos do overtourism e melhorar a experiência tanto para turistas quanto para moradores locais.
St-Tropez
Localizada na Riviera Francesa, St-Tropez enfrenta um fluxo diário de mais de 80 mil visitantes durante os meses de alta temporada, gerando preocupações com impactos ambientais e sociais. E para lidar com o overtourism, o governo proibiu voos domésticos para destinos acessíveis de trem em menos de duas horas e meia e introduziu um passe mensal de trem para jovens.
Sob a liderança da prefeita Sylvie Siri, St-Tropez está promovendo o turismo fora da alta temporada e investindo em eventos anuais e locais menos conhecidos para diversificar o fluxo turístico. Medidas sustentáveis estão sendo adotadas, incluindo a promoção de trilhas costeiras, mercados locais e eventos culturais. St-Tropez busca se reinventar como um destino que oferece mais do que apenas luxo, incentivando visitas durante a primavera e o inverno para manter a essência da vila e apoiar a comunidade local.
Veneza

Veneza passou a cobrar taxa de turistas para limitar os impactos das viagens “bate e volta” (Divulgação)
Veneza está entre as cidades mais atingidas pelo overtourism. Em 2023, cerca de 25 milhões de visitantes a visitaram. Em resposta ao volume excessivo de pessoas, a cidade implementou medidas para limitar o número de visitantes e promover uma gestão mais sustentável, mas a eficácia dessas ações ainda é um tema de debate.
Com a cobrança de um imposto temporário de € 5, aplicada entre 25 de abril e 14 de julho, oram afetadas 3.618.114 pessoas que fizeram reservas nos dias selecionados, com menos da metade isenta por pernoitar na cidade ou por outros motivos específicos.
A medida gerou € 2.425.310 (mais de R$ 14 milhões) e resultou em um controle efetivo do fluxo de visitantes, reduzindo o volume, principalmente aos sábados. A prefeitura considera aumentar a taxa para € 10 no próximo ano durante a alta temporada.
Overtourism: o desafio brasileiro
Como dito pela pesquisadora Mariana Aldrigui, na primeira parte da matéria, embora os números do Brasil apontem para um aquecimento da atividade turística, ainda não há volume suficiente para causar preocupação com overtourism. Por outro lado, esse segmento que se desenvolve a passos lentos, variando conforme investimento dos governos, permite que um planejamento seja desenhado para fugir dos problemas enfrentados pelas grandes cidades turísticas mundiais.
“O que precisamos é garantir que turismo esteja alinhado com a gestão dos locais, e não com ações separadas, como costuma ser em todo o Brasil, em qualquer nível de governo. Levar em conta a opinião dos residentes é fundamental. E vai ser fácil verificar isso – há eleições municipais chegando e praticamente nenhum candidato vai tratar de turismo como um tema importante, econômica ou socialmente”, observa.
“Acredito que o melhor caminho é focar na preservação ambiental e cultural, respeitando as comunidades locais. Devemos enfrentar o problema do overtourism com seriedade e buscar um ponto de equilíbrio”
Para entender a nível governamental o que pode ser feito neste cenário, o MERCADO & EVENTOS consultou o Fabrício Amaral, presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo (Fornatur), o qual expressou sua preocupação com o overtourism e defendeu uma gestão responsável que leve em conta a capacidade de carga dos destinos e o impacto da tecnologia na indústria do turismo. É importante dizer, que o órgão funciona como um canal de comunicação entre os estados, municípios e o Ministério do Turismo.
“Sou radicalmente contra excessos. A eliminação total do turismo seria irresponsável, pois trata-se de um segmento que se mostra como uma importante alternativa de emprego e renda. Acredito que o melhor caminho é focar na preservação ambiental e cultural, respeitando as comunidades locais. Devemos enfrentar o problema do overtourism com seriedade e buscar um ponto de equilíbrio”, afirma.
O executivo ressaltou ainda, que junto com outras pautas relevantes para o segmento e sociedade, o overtourism também está em discussão. “Há vários assuntos que se convergem aqui, e o que está faltando, na minha opinião, é um diálogo mais claro e aberto sobre esses temas, com medidas concretas”, aponta.
“o que está faltando, na minha opinião, é um diálogo mais claro e aberto sobre esses temas, com medidas concretas”
A perspectiva do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) é de que em 2024 o setor de Turismo no Brasil impacte o PIB em US$ 169,3 bilhões, um aumento de 9,5% em comparação com 2019, representando 8,1% do total de empregos no país e gerando mais de 8 milhões de postos de trabalho. Além disso, espera-se que os gastos de visitantes internacionais atinjam US$ 7 bilhões, enquanto o Turismo interno deve alcançar um recorde de US$ 112,4 bilhões.