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OPINIÃO – Overturismo: o malthusianismo não pode resolver

Com o sucesso da temporada de verão no hemisfério norte, o overturismo voltou a mobilizar as mídias internacionais. As taxas de Veneza, os tapumes do Monte Fuji, a água potável de Barcelona, os protestos nas Ilhas Baleares, o lixo no Monte Everest e os Airbnbs em Nova Iorque são exemplos de situações em que moradores e políticos se uniram para tentar combater a superlotação turística. Ignorando os benefícios trazidos pelo setor em termos de infraestrutura, lazer, economia e emprego, a atenção está voltada para os impactos negativos na vida local: inflação dos aluguéis, fechamento de comércios, falta de segurança pública, trânsito congestionado nas ruas e até nas calçadas. A rejeição manifestada pela imprensa preocupa os profissionais do setor, que se esforçam para promover a sustentabilidade e evitar que a aversão ao turismo ameace seu futuro promissor.

Essa preocupação é ainda mais válida devido ao potencial de crescimento do turismo nacional e internacional. A Organização Mundial do Turismo (OMT) destaca que os fluxos de turismo internacional, que eram de 25 milhões em 1950, já superaram os níveis pré-pandemia, atingindo 1,5 bilhões em 2024, e devem chegar a 1,8 bilhões em 2030. Esse crescimento virá, em primeiro lugar, das classes emergentes das novas potências econômicas, como China, Brasil, Turquia, México, Índia e Indonésia, e, futuramente, Egito, Vietnã e Nigéria, que desejam e poderão explorar os destinos emblemáticos do turismo mundial. Além disso, novas fontes de fluxo turístico estão surgindo. Nos países desenvolvidos, o turismo de lazer está se expandindo. Atualmente, apenas 60% das famílias aproveitam as férias para viajar, enquanto os especialistas preveem que essa taxa chegará a 80%. As novas formas de teletrabalho, como os “workations”, também estão criando novas modalidades de viagem que aumentarão a pressão sobre destinos-chave e locais populares nas redes sociais.

Diante dessas tendências inevitáveis, a turismofobia não é alimentada apenas pelo bem-estar dos moradores. Uma parte significativa da revolta divulgada pela mídia está relacionada a uma resistência ideológica à democratização das viagens. Nos anos 1870, na Inglaterra, as elites se opuseram à revolução promovida por Thomas Cook, que levou trabalhadores a viajar de trem para destinos anteriormente exclusivos da “gentry”. Em 1936, na França, prefeitos de balneários famosos anunciaram que não desejavam ver suas praias invadidas pelos “congés payés” (pessoas com férias remuneradas), que, segundo eles, eram incompatíveis com o nível de visitantes que desejavam. Hoje, apesar de o artigo 24 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, garantir o direito às férias e ao lazer, a ideia de um direito universal ao turismo ainda não é completamente aceita.

É necessário enfrentar os problemas causados pela superlotação turística, mas de uma maneira diferente, sem focar exclusivamente em reduções de viagens que serão inevitavelmente superadas pela crescente democratização internacional e doméstica do lazer. Muitos profissionais sugerem parar de considerar o “overturismo” como um fenômeno global, lembrando que a imensa maioria dos destinos turísticos é bem administrada e ainda tem capacidade para crescimento sustentável. Assim, a solução para a superlotação não é restringir o número de turistas, discriminando os “farofeiros”, ou impor uma redução das atividades do setor. É importante levar em conta o local, seus arredores, a época do ano, o dia da semana, o momento do dia, o nível de receitas e o perfil dos visitantes para orientar os fluxos turísticos de maneira adaptada a um crescimento inevitável, mas sustentável, de qualidade e para todos.

Devemos reconhecer o papel pioneiro das elites que estabeleceram muitos dos grandes destinos turísticos desde que a aristocracia inglesa criou a “Côte d’Azur”, e que ainda hoje são responsáveis por uma parte significativa dos investimentos e da economia do setor, incluindo a descoberta de novos destinos. Simultaneamente, o turismo continuará a crescer, e o foco deve ser na grande maioria dos territórios que ainda enfrentam “undertourism” — na França, por exemplo, 80% do país. Com uma nova visão, os profissionais podem ajudar a comunicar soluções que combinem o desenvolvimento do setor com a satisfação das aspirações de moradores e turistas. Devemos lembrar que o turismo não é apenas um setor líder da economia global, mas também uma aspiração transformadora que pode ser regulamentada, mas não bloqueada por um malthusianismo. Como Gilbert Trigano disse, o turismo é “a maior ideia desde a invenção da felicidade”; sua vocação deve continuar a ser universal.

  • Jean Philippe Pérol
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