PARTE I
A crescente demanda por destinos icônicos mundialmente levou a um fenômeno conhecido como overtourism, onde locais como Veneza, Barcelona e Amsterdã enfrentam uma sobrecarga de visitantes. Esse excesso tem consequências adversas, como a degradação ambiental, a saturação da infraestrutura e a deterioração da qualidade de vida dos residentes, além do surgimento de protestos contra turistas.
Um dos fatores que agravou a situação foi a pandemia de Covid-19, que, embora tenha temporariamente reduzido o fluxo turístico global, acentuou o desejo de viajar e intensificou problemas já existentes. “O que temos atualmente são diferentes dinâmicas de turismo, mas especialmente uma combinação perversa de ações direcionadas de marketing em mercados muito maiores, em muitos casos com alcance global. Mudança de valores geracionais, que priorizam experiências e não posses, e o desejo de conhecer destinos e pontos icônicos.
“O que temos atualmente são diferentes dinâmicas de turismo, mas especialmente uma combinação perversa de ações direcionadas de marketing em mercados muito maiores, em muitos casos com alcance global”
Se a gestão local de lugares desejados não levou em conta (ao longo do tempo) os efeitos nefastos do turismo, mesmo havendo uma coleção de alertas, hoje colhem os resultados. Veneza, Barcelona, Amsterdã e outros destinos europeus terão muitos desafios ainda para controlar os grandes volumes. A pandemia na verdade apenas acentuou o desejo de viajar em diferentes grupos”, disse Mariana Aldrigui, pesquisadora de Turismo e professora da USP, em entrevista exclusiva ao MERCADO & EVENTOS.
Para enfrentar os desafios do turismo em massa, diversas estratégias têm sido propostas e implementadas. Mariana Aldrigui sugere que os destinos afetados devem buscar equilibrar o fluxo de turistas com a preservação da qualidade de vida local, incluindo o aprimoramento da gestão turística, a promoção de experiências menos saturadas e a consideração das opiniões dos residentes.
“Não existe solução que retire os turistas e preserve os resultados e atuar somente nos preços é uma prática que funciona somente na teoria”
“Não existe solução que retire os turistas e preserve os resultados, até porque muitos dos residentes já foram duramente afetados e saíram das áreas centrais, ou mesmo das cidades. Atuar somente nos preços é uma prática que funciona somente na teoria, pois qualquer empresário que conhece a dinâmica do turismo sabe que o que se combina hoje não se pratica amanhã, e os preços serão ajustados para garantir o seu sucesso particular, independentemente do efeito coletivo”, analisa.
Ela também destaca a importância de um diálogo aberto e integrado entre o setor público e privado para garantir uma abordagem sustentável. “Com isso, a responsabilidade recai sobre o governo que deve usar as informações que subsidiam as empresas a expandir oferta (de assentos, de voos, de quartos) para entender se há capacidade real de administrar – as pessoas, o barulho, o lixo produzido, o incômodo”, explica.
Overtourism: Como fica o Brasil?

No primeiro trimestre de 2024, o Brasil recebeu 2,53 milhões de turistas internacionais (Divulgação/Ascom Setur-RJ)
O turismo brasileiro demonstra uma recuperação robusta pós-pandemia, superando os níveis pré-Covid-19 e alcançando um desempenho significativo no cenário global. No primeiro trimestre de 2024, o Brasil recebeu 2,53 milhões de turistas internacionais, registrando um aumento de 10,4% em relação ao mesmo período de 2019. Além disso, o país subiu oito posições no Índice de Desenvolvimento de Viagens e Turismo do Fórum Econômico Mundial, ocupando agora a 26ª posição globalmente.
O impacto das redes sociais nesse crescimento é notável. Uma pesquisa realizada pelo Ministério do Turismo revelou que 47% dos brasileiros utilizam as redes sociais como principal fonte de informação ao planejar suas viagens, superando o conselho de amigos e familiares, que representam 45%.
” O Brasil não tem nada comparável com o que se passa em Barcelona ou Veneza. Nosso turismo ainda é tão incipiente que, para termos elementos de overtourism, teremos realmente falhado inclusive em aprender com lições internacionais”
“O que se vê hoje é o aumento considerável do compartilhamento de informações em tempo real, que garante ao turista a possibilidade de fazer diferentes escolhas e fugir das tentativas de controle externo – então cada vez menos ‘pacotes engessados’ e cada vez mais ‘roteiros independentes’.
Isso pode ajudar a distribuir pessoas por novas áreas, mas em geral leva a mais concentração em espaços que não foram pensados para o turismo (veja casos como botecos famosos no Rio de Janeiro e SP, espaços ‘escondidos’ nas capitais e por aí vai)”, aponta a pesquisadora.
O levantamento do Instituto de Pesquisa de Reputação e Imagem (IPRI) também apontou que 48% dos entrevistados fazem compras de passagens e hospedagens online, com apenas 22% recorrendo a agências de viagens tradicionais. Mesmo com os números em ascensão, o Brasil ainda não enfrenta o fenômeno do turismo em massa, como observado em destinos europeus.
“Em tempo, vale destacar que o Brasil não tem nada comparável com o que se passa em Barcelona ou Veneza. Primeiro, porque não temos as operações low cost que viabilizem deslocamentos massivos. Segundo, que mesmo em destinos como Gramado e Canela, que têm mais visitantes que habitantes, os preços dos serviços não são convidativos para o turista que gasta pouco. Nosso turismo ainda é tão incipiente que, para termos elementos de overtourism, teremos realmente falhado inclusive em aprender com lições internacionais”, ressalta.
É importante ressaltar que o bom desempenho do Brasil o levou a figurar entre os 15 maiores mercados globais de viagens em 2023, segundo o Global Travel Market Report 2024 da Phocuswright, superando a Escandinávia e ocupando a 15ª posição. E em 2023 recebeu 5,9 milhões de turistas estrangeiros, um aumento de 62,7% em comparação a 2022, com despesas recordes de R$ 34,5 bilhões.